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Clean in Place, Smart in Performance: otimização real na indústria de tabaco

Clean in Place (CIP) é um método automatizado de higienização que permite a limpeza de superfícies internas de tanques, tubulações, válvulas e trocadores de calor sem desmontagem do equipamento. Trata-se de uma tecnologia amplamente consolidada em indústrias de processo por sua capacidade de reduzir paradas operacionais, padronizar resultados e mitigar riscos de contaminação cruzada.

Do ponto de vista técnico, a eficiência de um ciclo de CIP não depende de um único fator, mas do equilíbrio entre quatro variáveis clássicas conhecidas como TACT ou 4Ts, sendo: tempo, ação mecânica (turbulência/impacto), química e temperatura.

Esses parâmetros precisam ser ajustados de acordo com o tipo de resíduo (solo), material do equipamento e geometria do sistema. Por essa razão, não existe um CIP universal: cada linha produtiva exige receitas de limpeza específicas, validadas e reproduzíveis. Apesar da variedade de aplicações, um ciclo de CIP bem estruturado segue uma lógica operacional simples e repetível:

  1. Esvaziamento do sistema e identificação do fluido em circulação;
  2. Pré-lavagem, com o objetivo de remover a carga mais pesada de resíduos;
  3. Lavagens químicas específicas;
  4. Sanitização, comumente aplicada quando há risco microbiológico ou exigência regulatória;
  5. Enxágue final.

Ao longo dessas etapas, a instrumentação de processo exerce papel central. A medição de condutividade é amplamente utilizada para separar fases (produto, água, soda, ácido), confirmar endpoints de enxágue e viabilizar reuso de soluções.

Em paralelo, o controle de temperatura, vazão e pressão garante que a ação mecânica e a energia térmica sejam suficientes para remover os resíduos-alvo, sem comprometer a integridade dos equipamentos.

Na manufatura de tabaco, por exemplo, o uso de CIP é particularmente crítico nas etapas de casing e flavoring do processo primário. Nessas fases, são aplicadas caldas hidrossolúveis ricas em açúcares e umectantes (como glicerina e propilenoglicol), seguidas, em alguns casos, por compostos aromáticos de top dressing.

Altria, Smokeless Tobacco Manufacturing Process

CIP baseado em endpoints: redução de tempo, químico e energia

Uma análise competente de CIP, conforme os cinco passos, começa pela medição sistemática do que ocorre em cada fase do ciclo, além do custo associado a cada decisão operacional. Esses dados sustentam a validação inicial, com critérios objetivos e, quando necessário, amostragens laboratoriais e a verificação rotineira do processo.

O resultado é uma trilha de auditoria robusta, que comprova que o CIP executado está em conformidade com o CIP validado e que pode ser reavaliada sempre que houver mudanças de produto, formulação, equipamento ou química de limpeza. Na prática, as melhorias mais consistentes em CIP não vêm de um único ajuste, mas da combinação entre decisão baseada em medição, reaproveitamento de soluções e modernização seletiva de sensores. 

Um primeiro passo de alto impacto é substituir buffers de tempo fixo por endpoints medidos. O uso de turbidez com resposta em sub segundos para transições e condutividade para encerramento de enxágues reduz ciclos desnecessariamente longos, diminui consumo de água e energia e, em iniciativas bem conduzidas, costuma entregar ganhos iguais ou superiores a 20% em tempo total de CIP.

O reaproveitamento controlado de soluções alcalinas e ácidas, viabilizado pela medição de condutividade, gera reduções adicionais. Ao recuperar soluções ainda dentro de especificação e evitar sua diluição prematura, é comum observar reduções da ordem de 10% (Yokogawa Eletric Corporation, 2020) no custo operacional direto, considerando químicos e carga de efluentes.

Em paralelo, modernizações pontuais de sensores costumam gerar saltos expressivos de eficiência:

  • Cabeças de jato rotativas em tanques podem reduzir o consumo de água e o volume total de CIP em cerca de 70%, em comparação a sistemas convencionais;
  • Limpeza de sedes de válvula por pulsos curtos reduz em torno de 90% o volume de líquido nessa etapa específica;
  • Ajustes na seleção, acionamento e curva de operação de bombas frequentemente resultam em economias próximas de 30% em energia elétrica.

Os percentuais citados (Alfa Laval Ltda) representam ordens de grandeza observadas em projetos de otimização de CIP em indústrias de processo com sistemas já existentes, incluindo tabaco. A comparação ocorre quando há evolução de ciclos baseados em tempo para ciclos instrumentados e orientados por medição.

Copyright: ST-One

Arquitetura digital de CIP: conectividade, controle por eventos e confiabilidade

A confiabilidade de um sistema CIP depende de uma arquitetura de conectividade em camadas. No nível de campo, sensores sanitários de condutividade, turbidez, vazão, pressão e temperatura, bem como atuadores críticos, devem fornecer sinais de processo e diagnóstico ao controlador com baixa latência e alta disponibilidade.

Ao subir para a camada de dados e aplicações, a conectividade deve permitir a correlação entre dados de CIP, produção e manutenção. Historiadores e plataformas analíticas precisam receber dados estruturados por campanha, SKU e equipamento, viabilizando análises comparativas e detecção de padrões fora do esperado.

Na camada de controle, a lógica de CIP deve ser orientada a estado e evento, e não apenas a sequências temporizadas. Isso implica em decisões como avançar de uma fase para outra, recuperar soluções ou interromper o ciclo por alarme dependam diretamente das medições validadas no retorno do sistema.

Para isso, o controlador precisa expor não apenas valores de processo, mas também diagnósticos de qualidade do sinal, status de sensores e integridade de atuadores, permitindo uma operação mais resiliente e menos dependente de intervenção manual.

Essa integração é especialmente relevante para iniciativas de digitalização, analytics avançado e uso de modelos de machine learning voltados à detecção precoce de desvios, degradação de desempenho de limpeza ou necessidade de ajustes finos nos parâmetros TACT.

Na indústria do tabaco, um exemplo claro dessa abordagem está nas linhas de aplicação de aditivos e umidificação intermediária, que operam com múltiplos SKUs e trocas frequentes. Nesses casos, a confiabilidade do CIP depende da capacidade de correlacionar assinaturas de limpeza com o histórico de campanhas anteriores. Dessa forma, é possível identificar aumento progressivo de tempo de enxágue ou consumo químico associado a determinados blends.

Com conectividade adequada e dados bem estruturados, esses desvios deixam de ser percebidos apenas após impactos na produção e passam a ser tratados de forma preventiva, elevando a previsibilidade operacional e a maturidade do processo.

Entenda mais sobre o processo de CIP em uma indústria.

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