A presença feminina na tecnologia tem avançado nos últimos anos, mas ainda enfrenta desafios estruturais que começam antes mesmo da escolha profissional. Em Curitiba, iniciativas comunitárias vêm contribuindo para mudar esse cenário ao criar espaços de aprendizado, troca de experiências e conexão entre mulheres que já atuam ou desejam ingressar na área.
Uma dessas iniciativas é o Women Techmakers, programa global criado pelo Google para apoiar e ampliar a presença de mulheres e minorias de gênero no setor tecnológico. Na capital paranaense, o capítulo local promove encontros, eventos técnicos e oportunidades de networking voltados ao fortalecimento da carreira e da participação feminina no setor.
De acordo com Amanda Barboza, engenheira de software e embaixadora do Women Techmakers em Curitiba, muitas barreiras surgem ainda na infância: […] “uma das principais dificuldades começa muito cedo. Meninas costumam receber menos incentivo para explorar tecnologia, lógica e áreas de exatas. Muitas acabam nem considerando a tecnologia como uma possibilidade de carreira, não por falta de capacidade ou interesse, mas por falta de estímulo e exposição”, afirma.
Segundo ela, em cidades como Curitiba também pesa a quantidade ainda limitada de iniciativas que aproximem meninas e mulheres da tecnologia de forma contínua. Nesse contexto, movimentos como o Women Techmakers e o Emíli@s – Armação em Bits, da UTFPR, ajudam a construir ambientes seguros para aprendizado, troca de experiências e desenvolvimento profissional.
Comunidade como espaço de apoio e desenvolvimento
Além do incentivo inicial reduzido, outras barreiras podem surgir ao longo da carreira, como a falta de representatividade, ambientes pouco acolhedores e a sensação de precisar provar constantemente a própria competência técnica. Comunidades como o Women Techmakers Curitiba atuam justamente para enfrentar esse cenário, promovendo encontros que funcionam como espaços de aprendizado e também de construção de redes de apoio.
“Organizamos eventos onde mulheres podem palestrar sobre temas do dia a dia, compartilhar conhecimento e desenvolver habilidades de apresentação. Ao mesmo tempo, estimulamos conexões entre participantes, criando um ambiente de apoio e colaboração”, explica Amanda.
Os encontros reúnem um público diverso. Participam desde estudantes e profissionais em transição de carreira até mulheres que já ocupam posições consolidadas no mercado, como desenvolvedoras, analistas, líderes e empreendedoras de tecnologia. Profissionais de recursos humanos também acompanham os eventos em busca de talentos e aproximação com a comunidade.
Quando o networking gera oportunidades
O impacto dessas conexões muitas vezes se traduz em oportunidades concretas de trabalho. Em alguns casos, o networking construído dentro da comunidade acaba abrindo novas portas profissionais. A própria Amanda viveu essa experiência. Segundo ela, uma conexão feita durante um encontro resultou em uma indicação para uma vaga internacional.
“Consegui uma posição em uma empresa renomada depois de conhecer uma desenvolvedora em um dos encontros e criar essa conexão. Ela me indicou para a vaga. Esse é um exemplo claro de como o WTM vai além do evento: ele cria redes de apoio que podem transformar trajetórias profissionais.”
Além do conteúdo técnico, os encontros também contribuem para o desenvolvimento de competências importantes para a carreira, como comunicação, confiança e posicionamento profissional. Momentos específicos de interação entre participantes e palestrantes estimulam a troca de experiências e a criação de novas conexões.
Diversidade como motor de inovação
O tema global do Women Techmakers neste ano, “Quebrar o Padrão”, dialoga diretamente com os desafios ainda presentes no setor tecnológico. A iniciativa busca ampliar a percepção sobre quem pode ocupar esses espaços e contribuir para transformar a cultura da área.
“Essa mensagem fala sobre romper estereótipos, ampliar a representatividade e criar caminhos para que mais mulheres possam entrar, crescer e ser reconhecidas na área. Mais do que ocupar espaço, trata-se de transformar a cultura do setor”, afirma Amanda.
Empresas também podem desempenhar um papel relevante nesse processo ao apoiar iniciativas comunitárias e fortalecer suas próprias estratégias de diversidade.
Segundo Amanda, muitas comunidades independentes operam com recursos limitados, e parcerias simples já fazem diferença — como disponibilizar espaço para eventos, apoiar a infraestrutura ou incentivar profissionais da própria empresa a compartilhar experiências.
“Quando a empresa abre esse diálogo e mostra como trabalha, fortalece sua marca empregadora de forma autêntica. Isso aproxima talentos e contribui para formar um pipeline mais diverso.”
Um exemplo desse movimento também aparece dentro das próprias empresas de tecnologia. Na ST-One, companhia especializada em inteligência de dados para a indústria, a presença feminina vem crescendo em diferentes áreas técnicas.
Hoje, mulheres representam cerca de 67% do time de analytics, responsável pela criação de análises sobre indicadores de processos industriais, 30% da equipe de cientistas de dados, 27% do time de tecnologia, que reúne desenvolvedores front e back end, infraestrutura e desenvolvimento de hardware, e 20% da área de automação, responsável pela implementação de soluções diretamente nas fábricas.
Para Hellen Cristina Ancelmo, cientista de dados da empresa, ampliar a diversidade nas equipes técnicas também contribui para a inovação no setor. “A presença de mulheres em diferentes frentes da tecnologia amplia perspectivas e melhora a forma como os problemas são analisados e resolvidos. Em áreas como ciência de dados e inteligência artificial, diversidade de pensamento ajuda a desenvolver soluções mais completas e eficientes”, afirma.
Competências para o futuro da tecnologia
Com o avanço de áreas como dados, inteligência artificial e indústria 4.0, algumas competências ganham ainda mais relevância para quem deseja se destacar no setor. Curiosidade para aprender continuamente, pensamento analítico e capacidade de resolver problemas estão entre as habilidades mais valorizadas.
O uso estratégico da inteligência artificial também tende a se tornar um diferencial importante para profissionais da área: “A IA já impacta diretamente a produtividade em tecnologia, dados e automação. Quem souber incorporá-la ao trabalho de forma inteligente tende a ganhar eficiência e ampliar sua capacidade de entrega”, afirma.
Um convite para a próxima geração
Para jovens que ainda estão em dúvida sobre seguir carreira em tecnologia, Amanda deixa um conselho direto: experimentar pode ser o primeiro passo para descobrir novas possibilidades. “Se a tecnologia desperta sua curiosidade, permita-se tentar. O início pode exigir persistência, mas é uma carreira muito recompensadora. Ver algo que você ajudou a construir sendo utilizado por pessoas e facilitando a vida delas é extremamente gratificante.”
Em Curitiba, a comunidade segue ampliando esse espaço de troca e desenvolvimento. O próximo encontro do Women Techmakers Curitiba está previsto para o dia 28 e deve reunir conteúdos técnicos e debates alinhados ao tema global deste ano.
As inscrições para quem deseja propor atividades para o evento permanecem abertas até 27 de março. Mais informações sobre a comunidade podem ser acompanhadas nas redes sociais do grupo.